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O que eu sei sobre o mundo não define quem eu sou

Tenho lembranças antigas de me sentir deslocada em vários lugares por acreditar não ter conhecimento de mundo suficiente para pertencer ali. Assuntos como literatura, música, filmes, e cultura pop são alguns exemplos de assuntos que nunca cheguei perto de dominar, seja pela minha infância com referências restritas ou por falta de interesse mesmo.
De um tempo pra cá me sinto cada vez mais cobrada sobre conhecer as coisas – como se saber de cor o nome de qualquer atriz ou letra de música popular fosse uma obrigação mínima da minha existência. Já aconteceu por aí? Em ocasiões como essa, sinto que perco oportunidades de troca, como se repertório fosse um pré-requisito unânime para fazer parte de alguns grupos ou até mesmo para criar conexões.
À partir desse raciocínio e da minha própria vivência, o que me parece é que as pessoas estão fugindo sempre que podem das conversas aprofundadas sobre si mesmas, como se qualquer coisa que acontece no mundo fosse mais relevante e bonito do que o que cerca uma vida comum. Discutem tanto sobre o caráter, as decisões e dilemas de personagens, sejam reais ou fictícios, que não sobra tempo para lidarem com suas próprias questões ou pelo menos conseguem evitar que isso não chegue perto de ser uma pauta na roda. E isso me deixa com uma pulga atrás da orelha, confesso.

É por isso que, pra mim, comunicar tem esse quê mágico de clareza, de considerar que nem todo mundo sabe o que é óbvio pra gente e é exatamente por isso que a gente troca e é através disso que a gente toca o pensamento do outro. É no não saber que a gente desperta, e a melhor parte: é nessa construção de conhecimento que a gente cria possibilidades e atravessa pontes. Não digo aqui que enriquecer nossa própria biblioteca interna de conhecimento nos torne desinteressantes ou monótonos, mas sim que precisamos diversificar essas fontes, enxergar mais tesouros dentro da gente e buscar tanta informação e referências inusitadas a ponto de nos identificarmos, apreciarmos e consumirmos coisas diferentes. Isso não muda o centro das mensagens ou do que almejamos como comunidade, povo ou indivíduo. Isso apenas cria mais caminhos de força e potência para o que é original, além dos convencionais e de senso comum.

No final das contas eu aprecio não saber sobre tanta coisa pois sinto que é exatamente nessa falta que sobra mais espaço na minha cabeça pra preencher com coisas que quero ser daqui pra frente… E, pensando bem, se muita gente sabe sobre as mesmas coisas, populares, massificadas e muitas vezes consideradas absurdamente básicas, o que nos diferenciaria em repertório? A data que cada um soube? a fonte que cada um consultou? a opinião que cada um tem sobre o assunto? De qualquer forma e em qualquer contexto, o que nos diferencia é o que somos, mas tenho certeza que podemos ocupar cada vez mais o nosso lugar de ser e dizer quando nos ocupamos de saber quem somos. E isso também é conhecimento e uma baita descoberta!

Por fim, me abraça saber que meu tipo de conversa muitas vezes tem tom de livro aberto sobre mim mesma, que os temas que mais me emocionam são casualidades que frutificam histórias de pessoas que se colocam como seus próprios porta vozes. Me desespero com os muros que alguns criam para evitar que suas entranhas venham à tona porque o meu lugar comum de admiração por alguém geralmente parte de um lugar de liberdade e não de fronteiras.
Me impressiono com quem sabe muito quando esta é a mesma pessoa que desbrava o mundo para escancarar a si. Se for por fantasia, a perda se torna um rumo certo.
Eu tenho certeza que quem se encanta por mim não o faz porque conheço tudo que existe no mundo e sim porque quando encontro terreno, eu me aprofundo em abrir o que sou e anseio um tanto que o outro se sinta à vontade pra fazer o mesmo.

Com tudo que cabe,
Stéfany.

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