O PASTELEIRO DA RUA RIO DE JANEIRO

por | maio 19, 2021 | Crônicas

O tempo não passa pro pasteleiro da Rua Rio de Janeiro. Toda vez que passo por ele, ainda consigo me ver com o uniforme verde bandeira do Mundo das Letras, segurando mole a bisnaga de ketchup na mão, enquanto desdenhava da pimenta que ele sempre oferecia. Suspeito que tenha sido em alguma dessas visitas que eu elegi a pimenta como um dos itens principais da minha “lista de coisas de adulto” que eu jamais ousaria provar ou gostar e acabei provando e gostando.
A gente costumava arrematar um dia ou outro com o sabor da gordura e do papo furado dele. Sua cara toda vez estampava o gosto pelo futebol ao falar sobre o flamengo e mesmo quando não tinha jogo na tela, ele espionava a TV incessantemente entre um pastel e outro, como se o que passava ali, seja o que for, não pudesse passar batido. Eu acho que ele era flamengo mas não tenho certeza.
O tempo passa por ele e ele fica. Mesmo depois de mudar de ponto, subindo pra um cômodo mais pra cima da rua que também o levou pra mais longe da gente, parece que por lá nada mudou. Parece que a vida o atravessa sem cortar há uns 15 anos. O boné que sempre deixava escapar um chumacinho de cabelo nas laterais, a blusa branca encardida que debruçava o balcão, um relógio bem lá no alto da parede que, pensando bem, hoje cairia muito bem pra um alongamento de pescoço. Até na parede parecia que o tempo fugia do pasteleiro.
Me lembro que cismava com a destreza que ele tinha em afinar a massa, passar pela máquina sem se enrolar, como fazia aquilo acontecer bonito! E não é que ele fazia isso pra performar e cobrar mais caro da gente, parecia que o encontro dele com esse ofício era íntimo, se dava com o refino do toque, com o domínio das etapas e finalmente com as bolhas douradas servidas no prato transparente.
Morde a ponta, sopra, espera esfriar. Quando o pedaço de queijo chegava nas primeiras mordidas, era sorte. Quando ficava pro fim, chave de ouro. Era sempre sodinha pra acompanhar. Uma garrafa de vidro que ele sacava com força de dentro do freezer enquanto batia o suporte de canudos no balcão pra me lembrar que não era hora pra copo – senão pro cafezinho dele, que esvaziava a garrafa em doses homeopáticas pra preencher o corpo enquanto não dava pra fumar o cigarro na porta olhando o movimento.
O tempo pra ele estava sempre pronto pra ver a rua inteira passar.

Ontem passei apressada e ele, me olhando com calma, sorriu com um franzido manso nos lábios e me convenceu, sem dizer ou explicar, que tudo vai passar.

ler mais posts desta categoria

× Contato