TEMPO OU PRESSA?

por | abr 22, 2021 | Crônicas

Foi observando um casal de velhinhos desfilando os seus passos curtos e preguiçosos na sala de espera da clínica veterinária que pensei: por que mesmo eu tô com tanta pressa em plena manhã de sábado?
Não era um dia de trabalho pra mim, pelo menos não havia nenhum compromisso na agenda. Até mesmo a consulta que marquei para a Filomena, a mais novata membra felina da nossa família, fora marcada há menos de uma hora em um daqueles ímpetos de “preciso fazer isso pra já”. E precisava mesmo pois naquela altura já se completavam 13 dias desde o domingo que a resgatamos e, para arriscar uma convivência com a veterana Madalena, já havíamos adiado demais em providenciar as vacinas e testes.
Na cena que agora rememoro, a senhora trazia no colo sua cadelinha com um semblante quase tão debilitado quanto a sua tutora. Ela ia soltando as palavras aos poucos e mesmo não tendo contado um por um, eu arrisco que ela tenha distribuindo uma dúzia de agradecimentos a equipe da clínica. Pouco antes disso eu já havia me deparado com o seu companheiro que me direcionou uma pergunta com um tom tão antiquado que acabei demorando alguns segundos pra entender: “De que qualidade ela é?” e responder: “Não sei, mas parece ser mestiça”.
Depois de finalmente ter colocado um ponto final na gratidão, a senhorinha veio em minha direção doida pra puxar um papo final. Arrisco que comentaria sobre o motivo de tanta gratidão ou demonstraria alguma curiosidade em conhecer o que eu trazia dentro da minha caixinha, mas jamais terei certeza desse diálogo pois a doutora pet me chamou para entrar antes que os seus passos curtos e voz branda pudessem me alcançar e é claro que eu automaticamente apertei o passo e corri, com a pressa que me é comum em qualquer caso. Agora penso que o senhor, com aquela sua linguagem característica, poderia muito bem ter me descrito como a menina com rodinha nos pés…

Bom, não ando devagar, não direciono perguntas aleatórias para desconhecidos, raramente solto uma penca de agradecimentos com entusiasmo para alguém senão um breve e automático obrigada… O que diabos me distancia tanto do tal casal de velhinhos? Foi o que eu quis investigar e eu quis investigar porque no fundinho eu queria que aquele papel fosse o meu, confesso. É claro que recorri ao óbvio por um momento e quis colocar a culpa na minha geração. Até lembrar que essa palavra geração me dá arrepios! Eu posso me considerar jovem aos 25? Se você acha que sim, vamos ao meu palpite! Se você acha que não, te peço licença pra considerar que sim.

Não é que nós, jovens, tenhamos menos tempo pra viver. Nós temos mais pressa. E isso não tem nenhuma lógica nen-hu-ma.

Reparei então que se fosse questão de tempo, logo eu que deliro com o tom que a palavra calma pulsa em qualquer conversa, me vi longe-bem-longe do sossego. Me lembrei que meus compromissos mais comuns estão entre mal resolvidos e urgências. Me lembrei também que devo uma boa parte da pressa que me inunda a um lugarzinho que eu criei chamado modo de espera, onde deposito coisas na esperança que se dissipem por conta própria enquanto, na verdade, por lá elas só se transformam em pendências mesmo.

Penso então que acumulo muita coisa e não tenho muita destreza para administrar a soma de anseios que cultivo. Me torno então essa jovem apressada que inveja um lento casal de velhinhos puramente porque essa imagem me faz acreditar que eles não penduram nenhum compromisso no tornozelo ou no Google Agenda.

Geralmente é gente cheia que me desaquieta, aquele tipo que fala em forma de um inesgotável despejo. Não me aquieta em nada pensar que estamos todos a buscar trincheiras entre bombardeios diários e talvez seja por me ver correndo para a próxima nesse exato momento que esse sossego tenha me descompassado.

Com tudo que cabe,
Stéfany Freu.

 

 

 

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