UM PARALELO SEM NÓ

por | nov 11, 2021 | Crônicas

Ouça enquanto lê:

Fazer algo novo nascer em mim enquanto a vida acontece tem sido o meu maior desafio. Embora as pessoas acreditem que o meu maior dilema agora é administrar um casamento recém nascido, eu juro que somos dois bem resolvidos quando o assunto é a gente. Mas preciso te dizer que esse texto ainda vai arrastar um pouco a nossa versão casal. A minha atual questão é uma coisa que eu não imaginava que teria em comum com o João tão cedo. Explico.
A música sempre contornou a vida dele como um paralelo entre interesse e trabalho. Ora só interesse, ora também trabalho. E é bem interessante dizer que talvez esse seja o paralelo mais atravessado em alguém que eu conheça. Já teve temporada em banda de cerimônia de casamento, no ministério da igreja, em projetos de amigos… Na sala de casa a música sempre foi pauta presente desde que se conhece por gente.
Nesse ritmo, se dividir entre o que faz e o que quer fazer parece ser algo inerente e intrínseco ao João que eu conheço. Esse combo de jornadas duplas sempre me pareceu possível e cai muito bem no colo dele. Já no meu, não posso dizer o mesmo, ao menos por enquanto. Eu sou mais ansiosa, menos focada e posso demorar horas pra engrenar num ritmo de concentração pra produzir coisas que já estou acostumada a fazer… Imagina pra dar vida a uma coisa nova paralela que nem sei exatamente o que é!
Pra ter uma ideia, hoje eu tenho a metade do volume de trabalho que tinha há 6 meses, uma pessoa a mais na equipe e continuo não dando conta dos meus processos como gostaria. Tudo porque minha bendita cabeça não consegue encarar uma coisa de cada vez e deixar as coisas fluírem. Olho pro computador e me sinto travada. Olho para uma folha em branco e me sinto travada. Olho pra TV e me sinto cometendo um pecado em estar ali enquanto poderia estar olhando para o computador ou para uma folha em branco. Definitivamente me sinto lenta. Me sinto lenta e travada mas decidi acreditar que logo em seguida virá uma porta aberta, uma cabeça desenrolada, uma ideia brilhante.
Um caminho sequer está de bom tamanho.
Ponderar que estou prestes a vivenciar algo que ainda não seguro nas mãos, faz eu me sentir uma bomba em estado de super tensão prestes a explodir, e isso me anima mas também me deixa muito entediada, desesperada e ofegante – e pensar que não dá nem pra dar uma segurada na vida ordinária pra mergulhar nessa loucura por completo, sabe? É como se eu tivesse testemunhando e ao mesmo tempo vivendo na pele um daqueles momentos embaraçosos em que se está em uma fila gigante para comprar um pastel de queijo e o pastel de queijo acaba exatamente quando chega a sua vez. Ali mesmo você percebe que é incapaz de escolher um outro sabor dentre os outros 34 do cardápio porque, adivinha, você nem sabia que tinha um cardápio porque foi ali focada no pastel de queijo e pronto. Não sei você, mas eu nesse cenário sou a pessoa que só consegue imaginar o próximo cliente da fila prestes a me esfaquear por causa da demora na fila do pastel e desato logo um “ops, acho que tô sem fome, obrigada”.
Não sou capaz de tomar uma decisão rápida, muito menos uma decisão rápida sob pressão. Ou seja, não é natural fluir de mim uma resolução de problema num piscar de olhos, imagina o parto pra fazer brotar uma obra de arte! Sim, eu me subestimo porque ainda não encarei essa minha parte assim tão artística mas a verdade é que sinto que esses novos ares me trazem um pouco mais que a escrita. Não sei se é pintar, cantar, esculpir, compor, fotografar ou uma construção que leva um pouco de cada… Mas enquanto isso eu vou experimentar um pouco de tudo até que, de alguma forma, eu consiga fazer um paralelo acontecer e me preencher sem me atropelar por inteiro.
Aliás, já comecei. Fazer algo novo nascer em mim enquanto a vida acontece tem sido o meu maior desafio mas eu vou continuar tentando. Que venham as minhas próximas descobertas, incômodos e verdades. Não se assuste caso se depare com algumas das minhas versões mais esquisitas e surpreendentes. Saiba que estou tateando e dá pra sentir bem daqui onde eu estou que os céus e os meus pés têm providenciado um caminho bem gostoso para os passos que estão por vir.

com tudo que cabe,
Stéfany Freu.

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